Um século de políticas habitacionais desastrosas para as cidades, com o prolongado desgaste do património construído, causou danos quase tão devastadores como os de algumas catástrofes, com a desvantagem de os diluir no tempo, o que demora a tornar visível a dimensão da desgraça.

Às vezes, as casas também morrem de pé – não são só as árvores como vimos e ouvimos numa aplaudida peça de teatro representada no início dos anos 60 do século passado – e são capazes de fingir que estão vivas por muito tempo, numa agonia quase invisível que destrói as cidades por dentro.

Aquela imagem que alguns arquitetos tanto gostam de evocar para ilustrar a degradação dos centros históricos – um donut redondo e luzidio com o seu buraco no meio – bem podia ser o símbolo irónico dos centros quando balançam entre a favelização e os escombros.

Pelo notável resultado da reconstrução de há 250 anos, rasgando-lhe o centro em linhas únicas, bem delineadas a compasso e esquadro, Lisboa conseguiu disfarçar melhor as inexoráveis marcas de um século de descuidos urbanísticos, mas chegou a hora da última oportunidade para deitar mãos à obra.

Esta é a tal tarefa digna do Marquês, a que me refiro no título, um projeto que pela dimensão do desafio terá de ser, quando adquirir a velocidade de cruzeiro, permanente, a marcar todo o tempo que durar a cidade que só poderá ser chamada de eterna se não descurar a sua própria regeneração e reabilitação.

Sei, por ter sido chamado a dar o meu contributo para essa tarefa digna do Marquês, que a reconduzida e reforçada equipa que gere a nossa capital está já empenhada deste projeto para Lisboa, tarefa tão importante para o país quanto tem de potencial para captar investimentos, incluindo investimento direto estrangeiro.

Os próximos anos, os anos do septénio de 2014 a 2020, o previsível último período de maior atenção europeia às suas periferias, serão decisivos para o dilema que se nos coloca e que se traduz na certeza de termos de reabilitar as cidades se não quisermos que elas acabem por morrer, já não apenas em escombros que ainda poderão, aqui ou além, aguentar-se  de pé.

A coadjuvar o presidente António Costa, nesta dinâmica da reabilitação urbana de Lisboa, que quer assumir-se como um projeto de referência no país, estão Manuel Salgado, arquiteto que foi reeleito vereador, e Paula Marques, que foi assessora de Helena Roseta quando esta arquiteta tutelou o pelouro da habitação, e que é agora um dos jovens reforços na vereação, como independente apresentada pelo Movimento Cidadãos Por Lisboa.

Fiel ao slogan “mais pessoas, mais emprego, melhor cidade”, a equipa municipal que assume, num mandato claramente reforçado que sufraga esta visão de Lisboa, os destinos da capital nos próximos quatro anos, fala claramente numa nova geração de políticas de habitação, a passar por um mercado de arrendamento acessível, por incentivos à reabilitação e nomeadamente com apoios  comunitários que privilegiam a eficiência energética e a resistência sísmica dos edifícios.

Para ser coerente com tudo o que tenho defendido, sou mesmo obrigado a aplaudir este bom exemplo de Lisboa.

Luís Lima
Presidente da CIMLOP
Confederação da Construção e do Imobiliário de Língua Oficial Portuguesa
presidente@cimlop.com

 

Publicado no dia 27 de dezembro de 2013 no Sol

Translate »